2005-07-07 15:02:00

       
  

Em defesa dos mal amados

Há uma certa nobreza torta e
enviesada em ser mal amado.O amor platônico, não no sentido erudito, mas
no popularesco mesmo, do amor não correspondido, tem virtudes
estranhas.A mais rotunda delas é a de que o amor não correspondido é o
único que dura pela eternidade, justamente porque nunca consumado.Fica
sempre no terreno da idealização, e mesmo que esquecido, se estratifica
na memória como catarse potencializada do que poderia ter sido.Não se
esquece um amor não correspondido , se sublima.Mas a coisa fica sempre
lá, latente e incólume, ainda que reclusa.O mal amado ama sem restrições
de retorno amoroso, e ama eternamente; por isto e muito mais, é
mais nobre, mais digno que estes que são amados ad nauseum por aí.

Acham que é conversa de desiludido? Pois bem, em
verdade vos digo:o primeiro grande mal amado da história ocidental foi
Ele mesmo, o próprio Jesus Cristo em pessoa.Resolveu amar a humanidade
inteira e em troca lhe pregaram na cruz.Sucumbiu e ressuscitou por amor
não correspondido.Lhe traíram pela companhia do canhoto, trocaram sua
divindade generosa pela fanfarronice plebéia.E o Homem continuou lá,
amando sem pedir nada em troca, sem medo de rejeição, incólume na sua
teimosia amorosa, sem uma chispa de dor de cotovelo.

Não por acaso, rezam as más línguas que o
Cristianismo seria o platonismo do povão.Cristo amou idealmente, sem
pedir nada em troca, igualzinho como Platão ensinou.Não abusou da coisa
amada e amou sem reticências, apesar e a despeito dos defeitos da coisa
amada, no caso, a infame humanidade.

Pois bem, hoje em dia , quem ama sem ser
correspondido é taxado de pateta.Qual nada.Amor em sentido unilateral é
de uma beleza poética insuperável e insofismável, embora o sofrimento
seja comparável a uma espécie de câncer do ego.Mas ora, nada mais
beatificante que um ego despedaçado, que um eu corroído pela doação
tragicômica de um amor sem retorno.Dá para se sentir uma espécie de
deidade generosa e complacente aos tolos mortais. Compreendem?

Reparem nas faces daqueles que, em vez de amar, são
amados sempre, que nunca sofreram uma rejeiçãozinha amorosa.São todos
gordos, rosados, sempre com um sorriso meio apalermado, com uma
felicidade abobalhada e abobalhante.Ser amado em demasia é prejudicial à
saúde do intelecto e da alma.Um certo tanto de dor é indispensável à
educação sentimental.Pobre de quem é amado demais.Nunca compreenderá uma
piada de Woody Allen, sempre dormirá nos fimes de Bergman e passará
eternos fins de semana jogando frescobol e aplaudindo o pôr do sol.Ser
amado demais é coisa de surfista carioca.

Amor, queridíssimos, implica sacrifício,
perdão,dor,tragédia implícita ou explícita.Amor para valer é um
sadomasoquismo sofisticado, um jogo de perdas e danos em que ainda que o
sofrimento seja dilacerante, a recompensa, ainda que
invisível,inalcançável, é mais que gratificante:a simples recompensa de
amar, independente do objeto amado.Amor de verdade é tal e qual uma
canção brega e canastrérrima de Vicente Celestino.Aprender a amar
direito requer anos de rejeição e mágoa.

Em suma:que me perdoem os bem amados, mas só os mal amados amam verdadeiramente.

  

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