Não é potável a água pura.
Não é suficientemente pura
a água aparentemente pura que bebemos.
Minerais invisíveis sujam seu ideal de pureza
e da sua farsa
líquida e cristalina de pureza
nos saciamos.
Não se bebe a água pura.
Não consumível.
A pureza, na água, é conquistada
por uma química ação que altera
a sua natureza impura.
Também não são suficientemente puros
uma ideia, ideal
ou alma aparentemente puros
com que criamos e saciamos
nossa sede fabricada de pureza.
Toda pureza é também nefasta:
água límpida que convida
a misturas insuspeitas
pelo seu puro ideal.
A pureza, como um corpo
quer se sujar e se desinventar
como sede suja de outro elemento
de um outro corpo.
Ou alma impura.
Um copo de água pura
para se envenenar.
Uma sede de impureza
para se salvar.